Primeiro de tudo, vocês achariam justo dizer que a arte de quem "se expressa" só no final de semana por lazer é tão artista quanto nós que passamos anos estudando para nos tornarmos profissionais? Vocês acham que quem estudou história da arte, que tem uma base de o que é um processo artístico realmente é igual a quem faz arte porque acha bonito?
Mesmo quem é do grafitti, da arte urbana, além de sua vontade de se expressar, vai atrás de referências estéticas e culturais, estudando sim, para além da técnica, e tão profissinal quanto qualquer um que sai da academia.
Mas tem muita gente que confunde um hobby, que apenas copia, que apenas exerce um lazer, com ser artista plástico no sentido profissional, até por seu completo desconhecimento do que é um campo profissionalizado.
Quando não existe seleção, recebemos por inscrição, uma apresentação onde tudo é arte, mesmo que arte enquanto hobby se confunda com arte enquanto profissão, fica muito difícil avaliar o que é uma coisa da outra.
Na versão passada tivemos muitos com pessoas que não sabiam trabalhar em grupo, que não faziam idéia de como montar uma exposição profissional por não terem nenhuma experiência no assunto. Tivemos que articular grupos de pessoas que não se conheciam e fazer com que se integrassem ao local da exposição e criassem toda a sua divulgação com menos de um mês de antecedência e foram processos dificílimos que com certeza, se fossem feitos com prazos maiores e entre pessoas que se conheciam os resultados teriam maior qualidade. Naquele momento foi super válido, mas repetir seria um grande erro.
Forçar uma seleção não é barrar a entrada dos artistas ou dificultar, mas ter um produto final - exposições, relação com o público, relações entre os artistas, apresentação de mercado - muito melhor, que mostrará que temos interesse em mostrar o nosso melhor. Já é a segunda edição da Bienal B e cometer os mesmo erros isso sim seria negativo, temos que mostrar que aprendemos com as falhas e buscamos melhorar.
Se esse é o melhor caminho, só a realização desta nova edição do evento vai nos dizer, pois também não temos um manual ao mesmo tempo que não queremos compiar modelos, mas, sim, criar novas alternativas através da experiência coletiva e nisso achamos que estamos indo na direção do desenvolvimento para melhorar a vida do artista, melhorar nosso mercado, a relação do público com a arte, para todos os artistas, profissionais ou não.
Por outro lado entendo que sintam falta daquela bagunça de que tudo pode, tudo é arte, todos podem, também simpatizo com essa liberdade...ok, tem o site, ali tudo pode. Mas pra se mostrar como artista profissional, você tem sim de ter conhecimento profissional, senão pra que fazer a UFRGS? Pra que buscar referências em outros artistas, buscar melhorar o trabalho, buscar ter sua indentidade profissional própria????
Vai ali no papel, na tela, "te expressa" e pronto. Mostra pros vizinhos e pros amigos e tá ótimo...
Mas se você tá ai, fazendo UFRGS, pensando no seu processo criativo, acho que no fundo vai concordar que a qualidade é importante.
Por outro lado, podemos estar pensando...A Bienal B antes era mais livre, era mais arte...
Concordo por um lado, pois também gosto das coisas mais livres, só que isso a gente pensa justamente porque tem conhecimento sobre a arte, porque se o público mal entende aquilo que é oferecido organizado, imagina aquilo que aparentemente é bagunçado... E a Bienal B é sim um mecanismo que se importa com a relação com o público.
Por outro lado, não posso acreditar que ter um pouco de critério seja tão negativo assim...
A banca que vai selecionar foi escolhida entre pessoas que não são curadores de carteirinha, não tem vícios nem prediletos. Tivemos o cuidado de pensar pessoas que se baseassem exclusivamente na qualidade profissional dos participantes, em suas qualidades de idéias, e não em seus currículos ou, principalmente, assinaturas.
Não será bacana inscrever seu trabalho e ele ser realmente reconhecido por ter qualidade?
A Bienal B é sim uma proposta alternativa, mas não no sentido de ser uma entidade filantrópica para ajudar o artista amador ou simplesmente promover uma festa das artes. Pelo contrário, sua criação aconteceu para pensarmos como melhorar a sustentabilidade de quem pensa em ser artista de profissão.
A Bienal B é uma proposta alternativa que visa criar mecanismos de desenvolvimento para melhorar o mercado do artista profissional, aquele que se esforça e que estuda (seja na acadêmia ou por conta própria), que busca qualificar sua arte para bem mais além do que se expressar, é um processo que envolve inteligência tanto no campo criativo quanto na relação com o sitema de arte, pois dessa forma, sua força de expressão é bem maior e profunda.
É bom lembrar também que os reais motivos de uma Bienal do Mercosul (agente super profissional de comércio de arte) existir é dizer "olhem, esse artista é o bom, ele tem valor de mercado" só que esse artista que eles estão promovendo para o mercado não é nenhum de nós.
Nesse ponto a Bienal B é bem alternativa, pois estamos dizendo "hei, olhem aqui, temos artistas bons e estes são artistas que falam de nossa cultura e dão valor para o que é nosso! E posso garantir que tem muita gente no mercado lá fora, ou de outros lugares do Brasil, que vai achar o máximo conhecer arte que tem uma personalidade nossa toda própria, mas pra isso tem que ter qualidade sim, senão não funciona, vira patinho feio...
Se mostrarmos qualquer coisa, de qualquer jeito, é tudo o que "os raposas" querem pra dizer: hummm esse pessoal não entende muito não, são amadores, vamos olhar aquele pessoal da mercosul que são mais chic...
Bom, ai é só escolher...queremos continuar sendo uma quitanda de produtos coloniais, empresa familiar, que vive dos vizinhos ou seremos uma empresa de arte na capital, com qualidade para relacionamento profissional de gente grande?
Claro que a quitanda tem seu valor romântico, mas não passei anos da minha vida estudando e gastando meu dinheiro investindo na qualificação de minha arte, pra ficar dependendo da ajuda dos parentes e amigos, nem pra viver mostrar meu trabalho em restaurante junto com quem acha lindo quadro de flor gigante.
Bom gente, chega, já entupi os ouvidos de vocês e acho que mais claro que isto impossível. Desculpe se falei demais, mas podem ter certeza que abri meu coração e acredito firmemente que, apesar da seleção, isso vai sim beneficiar a todos e que a participação de todos é importante no projeto, mesmo que não seja pela seleção profissional, mas pelo apoio no cadastro on line do site, onde tudo vale e é igualmente importante.
Um abração a todos
Vou torcer pela decisão de vocês em participar.
Gaby Benedyct
Marketing Bienal B







